Falta de água potável e doenças: o problema invisível das comunidades vulneráveis

A água é indispensável para a sobrevivência humana, mas ter acesso a uma fonte de água não significa necessariamente ter acesso a água segura para beber. Quando a água está contaminada por bactérias, vírus, parasitas ou produtos químicos, pode transformar-se numa fonte de doenças. Em Moçambique, o acesso à água segura continua a ser um desafio em determinadas comunidades, especialmente em zonas rurais, áreas afetadas por desastres naturais e locais onde as infraestruturas de abastecimento são insuficientes. A situação pode tornar-se ainda mais difícil durante períodos de cheias, ciclones ou secas.

A UNICEF informou que, durante 2025, a sua resposta humanitária em Moçambique forneceu acesso a água potável segura a mais de 731 mil pessoas. A organização também destacou que o país enfrentava simultaneamente surtos de cólera, ciclones, conflitos e seca.

Quando a água se transforma numa fonte de doença

Uma das maiores ameaças associadas à água contaminada são as doenças transmitidas pela via fecal-oral. Isso acontece quando microrganismos presentes nas fezes humanas ou animais chegam à água que posteriormente é consumida ou utilizada na preparação dos alimentos. A cólera é um dos exemplos mais importantes. A bactéria Vibrio cholerae pode contaminar fontes de água e alimentos e provocar uma doença caracterizada principalmente por diarreia aquosa intensa e vómitos. Sem tratamento rápido, a perda de água e sais minerais pode provocar desidratação grave.

Outras doenças também podem estar associadas à água contaminada ou às más condições de saneamento, incluindo algumas formas de diarreia infecciosa, febre tifoide, hepatite A e determinadas infeções parasitárias. Por isso, quando uma comunidade perde o acesso à água segura, o problema não é apenas a sede. A população pode ficar mais exposta a doenças capazes de atingir especialmente crianças pequenas e pessoas em situação de maior vulnerabilidade.

Crianças entre as principais vítimas

As crianças são particularmente vulneráveis às consequências da falta de água segura. Episódios repetidos de diarreia podem provocar desidratação e contribuir para a desnutrição, especialmente quando a alimentação já é insuficiente. A situação pode ser ainda mais grave em comunidades onde as famílias precisam percorrer longas distâncias para conseguir água. Quando a água disponível é escassa, pode ser mais difícil utilizá-la para beber, cozinhar, lavar as mãos e manter a higiene doméstica.

A falta de água também pode afetar escolas e unidades sanitárias. Uma escola sem água adequada enfrenta dificuldades para manter casas de banho e estações de lavagem das mãos. Da mesma forma, uma unidade sanitária precisa de água segura para higiene, limpeza e prestação de cuidados. Em 2024, intervenções apoiadas pela UNICEF em Moçambique levaram serviços de água, saneamento e higiene a centenas de milhares de pessoas, incluindo escolas e unidades de saúde, mostrando a importância destas infraestruturas para a proteção da saúde.

As cheias podem agravar o problema

As inundações podem transformar uma situação de falta de água segura numa emergência ainda maior. Embora exista grande quantidade de água durante uma cheia, essa água pode não ser apropriada para consumo. As águas das inundações podem entrar em contacto com latrinas, resíduos, esgotos, animais mortos e outras fontes de contaminação. Poços e outras fontes de abastecimento podem ser contaminados, obrigando as comunidades a procurar alternativas.

Em fevereiro de 2026, a UNICEF relatou intervenções de emergência em várias províncias moçambicanas afetadas por cólera, cheias e seca. Em Nampula, por exemplo, milhares de pessoas receberam acesso a água segura através da reabilitação de furos e construção de novos pontos de abastecimento. Este cenário demonstra uma realidade importante: uma comunidade pode estar rodeada de água e, ao mesmo tempo, sofrer de falta de água potável.

Como proteger as comunidades?

Garantir água segura é uma das formas mais importantes de prevenir doenças. As comunidades precisam de fontes protegidas, sistemas de abastecimento resistentes às cheias, tratamento adequado da água e formas seguras de armazenamento dentro das casas. Quando existe risco de contaminação, devem ser seguidas as orientações das autoridades de saúde sobre o tratamento da água. A higiene das mãos, a utilização adequada das instalações sanitárias e a preparação segura dos alimentos também são fundamentais para interromper a transmissão de doenças.

A resposta não deve acontecer apenas quando surge um surto. É necessário investir continuamente em sistemas de água, saneamento e higiene, sobretudo nas comunidades mais vulneráveis e nas regiões frequentemente afetadas por ciclones, cheias ou secas. A experiência recente de Moçambique demonstra que o acesso à água potável não deve ser visto apenas como uma questão de infraestrutura. É também uma questão de prevenção de doenças, proteção das crianças e preparação para emergências de saúde pública.

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